BARBARIE TROPICAL
por Fernando Antonio Mourao Flora
e-Book + livro capa dura
Site: www.amazon.com.br
Brasil entrou numa segunda barbarie, selvageria, violencia disseminada. O revelador e' o numero exorbitante de crimes. Este ensaio explica as causas mais remotas e as atuais.
O autor tem mestrado pela Universidade de Paris-I.
fernando flora
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
NIXON: O PROTOTIPO DE LULA?
Nixon foi eleito presidente em 68. Pela
matreirice e pela brutal ambição, foi apelidado de “Dick
Trapaceiro”. Em 1972, foi reeleito e se envolveu no escândalo de Watergate.
Atrás das cenas, apareceu outra pessoa que aquela que o público achava que
conhecia: um tirano paranoico, muitas vezes embriagado.
Era o paradoxo Nixon, que ilustra a relação entre personalidade e política.
Habitualmente os traços são de ambição
intensa, autoritarismo, grandiosidade, arrogância, vangloria e subterfugio.
Nixon era um narcisista: tinha o sentimento de ser especial
ou único.
O narcisismo patológico começa
quando a pessoa se torna tão viciada em sentir-se especial que, como qualquer
droga, faz qualquer coisa para sentir tal completude, incluindo mentir, roubar,
fraudar, trair, e mesmo magoar os mais íntimos.
O narcisismo é uma faca de dois
gumes. O narcisista inclina-se ao abuso do poder, tolera comportamentos
transgressores de subordinados, rouba, quebra regras, engana o fisco, tem
relações extramaritais.
Pessoas com distúrbio de
personalidade narcisista tem uma necessidade imperiosa de ser tratadas como se
fossem especiais. As outras pessoas são simples espelhos, úteis para refletir a
visão única que tem deles mesmos. Se os outros ficarem mal na comparação, por
exemplo, arruinando suas reputações, paciência.
Os narcisistas demonstram:
agressividade se ameaçados, infidelidade, vingança, inveja excessiva, jactância, reputação
inflada e negação de qualquer malfeito.
Quando as pessoas se tornam mais
viciadas em se sentir especiais, ficam mais perigosas. Aqui é onde o
narcisismo patológico muitas vezes mistura-se com a psicopatia, numa
sucessão de mentiras sem remorso e de manipulação. Psicopatas podem
continuar em suas funções, fraudar as contas, assassinar reputações e manter o
sorriso hipócrita, sem sentir culpa, vergonha ou tristeza. É o
narcisismo maligno.
O maior perigo, como aconteceu
com Nixon, é que os narcisistas patológicos podem perder contato com a
realidade de formas sutis, que se tornam muito perigosas ao longo do tempo.
Quando não se satisfazem na necessidade de ser admirados ou reconhecidos,
precisam inventar uma realidade na qual continuam
especiais, apesar de todas as mensagens em contrário. De fato, tornam-se perigosamente psicóticos.
(Fonte: Lee, Bandy X. The Dangerous Case of
Donald Trump: 27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President (p.
84). St. Martin's Press. Edição do Kindle.)
domingo, 7 de outubro de 2018
FEMINICIDIO
O feminicídio é o misógino
assassinato de mulheres por homens ou “o assassinato de mulheres por homens
porque são mulheres” (Diana Russel). É perpetrado por homens machistas,
possessivos, ciumentos e violentos. As motivações são o ódio, os ciúmes, o
despeito, o sadismo. É comum o sujeito estar sob o efeito de drogas ou álcool
quando passa ao ato.
Paradoxalmente, o lugar mais
perigoso para a mulher é o lar, onde convive com o homem, seja marido, amante,
pai ou irmão.
Este crime misógino é uma forma
de violência sexual, implicando o desejo de poder, de domínio e de controle do
homem numa sociedade patriarcal. O patriarcalismo tem origens muito remotas.
Teria começado em tempos imemoriais quando as mulheres, naturalmente retraídas
e esquivas, eram pegas à força pelos homens -mais fortes-, e arrastadas para
dentro das cavernas. Mantinham-nas prisioneiras, para servir-se delas, como
companhia permanente de suas vidas. Assim, constituíram-se as famílias, que
governavam como “ciclópicos impérios” sobre suas mulheres e seus filhos (Vico).
Isto implicava a superioridade de gênero e o sentimento de posse (gerador de
ciúmes).
Os homens têm tendência a
considerar as mulheres como “propriedade” sexual e reprodutiva. O “título” de
posse é semelhante à de um bem material, terreno ou moradia por exemplo.
Historicamente, os proprietários de escravos, servos, mulheres e crianças
podiam desfrutar de seus “bens” como se lhes conviesse.
O feminicídio é principalmente
uma manifestação de possessividade e de ciúme. É desencadeado por uma ameaça de
separação ou de abandono do lar. Na maioria das vezes, a esposa ou amante tem
outro relacionamento. Isto pode precipitar um acesso de fúria narcísica,
motivado por uma necessidade de vingança insaciável.
Esta conduta revela que a
dominação masculina é também uma armadilha, condicionando-o a afirmar cegamente
sua virilidade. Torna-se uma questão de honra, que o “obriga” a agir, regido
pelo seu inconsciente falonarcísico. “A ordem social funciona como uma imensa
máquina simbólica, tendendo a ratificar a dominação masculina sobre a qual é
fundada. A virilidade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social,
mas também como predisposição ao combate e ao exercício da violência
(principalmente na vingança), é antes de tudo uma carga” (Bourdieu).
Este sociólogo desvela a dimensão
política do casamento (uma das primeiras instituições da cultura), cujo
interesse masculino seria a acumulação de capital simbólico e social (honra).
As mulheres seriam objetos ou bens simbólicos (dons) das trocas no mercado
matrimonial.
Portanto, a maioria dos casos de
feminicídio está relacionada com o ciúme do homem. Este afeto é um derivado da
disposição masculina de posse da mulher com quem tem um relacionamento íntimo. A
influência da tradição patriarcal rege o inconsciente androcêntrico.
“Se não vai viver comigo, não irá
viver”, sentenciou um feminicida.
domingo, 9 de setembro de 2018
A MULTIDÃO VERSUS O ESTADO
Coloquemos em foco três fatos
sociais recentes: as jornadas de junho de 2013, as manifestações de protesto de
2015 e a greve (motim) dos caminhoneiros de 2018.
Procuremos analisa-los para
encontrar seu sentido e o elo comum entre eles. Neles, indivíduos isolados, espalhados
numa constelação difusa na sociedade, foram aglutinados numa multidão (Negri),
através das redes sociais (pontos de link). O que levou esta massa a virar
consciência coletiva da sociedade? O que mobilizou indivíduos, cuidando de seus
próprios negócios, a se voltarem para o coletivo? Claro que no caso dos
caminhoneiros estava posta uma reivindicação setorial no desencadeamento do
movimento, mas depois houve articulação com a esfera pública. É evidente que,
no caso das jornadas de junho, a majoração em 20 centavos no preço do bilhete
de ônibus na cidade de São Paulo foi apenas um estopim.
O que estava represado em cada um
que forçou uma saída, expressando-se num grito de indignação fusionado?
O desespero diante uma realidade
insuportável, intolerável: viver numa sociedade que repete uma segunda barbárie,
pior que a primeira da época da colonização. A violência é seu ferro. A nação
brasileira encontra-se num processo de regressão, de dissolução do grau de
civilização que havia alcançado.
Brotou uma necessidade imperiosa de agir, de
alguma forma, para modificar este arranjo teratológico. A forma foram as manifestações
multitudinárias, cujo ícone era ser “sem partido”, ou a frase “vocês não me
representam”, sintetizando a crise de representação.
O que se expressava era a revolta
contra um sistema político apodrecido (os três poderes, mais a elite da
burocracia) que capturou o Estado.
Mosca afirma que, em todas as
sociedades, existem duas classes de pessoas. A primeira, minoritária,
monopoliza o poder e desfruta das vantagens que proporciona, enquanto a
segunda, a maioria, é dirigida e controlada e supre a outra com meios privilegiados
de subsistência.
Este é o conflito central da
sociedade brasileira neste início do século XXI, sob o impacto da globalização.
O antagonismo entre uma sociedade civil submetida a uma carga tributária de 35%
do PIB sob dominação de um Estado patrimonialista, corrupto, ineficiente,
irracional e hipertrofiado.
E diante de tanta inconformidade,
insurreição mesmo, como reagiu a classe política, o establishment?
Só fez acentuar sua couraça
pétrea num reflexo de defesa de seus privilégios. Boiando sobre a sociedade
civil, aí pretende ficar gozando do excedente que extrai das forças produtivas
da nação.
Para a perpetuação no poder,
criou um mecanismo perverso: um fundo eleitoral milionário, com verbas
públicas, destinado aos partidos políticos (entes privados). Ou seja, congelou
o que a multidão tinha posto em movimento.
Este é o cenário para as eleições
de 2018. A multidão ficou “a ver navios” e os “mortos-vivos” estão mais vivos
do que nunca.
É uma mistura explosiva.
Assinar:
Comentários (Atom)